quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A hora que não sei das horas

Foto Giorge De Santi

Olho para a taça de vinho e vejo o rubi da pedra preciosa.Vejo o que sinto nos lábios,o sabor da vida bebida a goles tintos.Começo a pegar fogo apertando no colo a madrugada,apurando o gosto em pausas...e,descanso miúdo de bebericar feito beija flor,eco de sabiá,curió,toda voz natural ,melodia pronta e viva adornando em sons a vida sincera,intensa que se adensa no tempo.Vibrante em nudez opaca,como são os corpos.Acesas como as almas que se expandem em cores curiosas que se ramificam no silêncio e se apoderam das formas do quarto.Tudo ,aqui ,agora é promessa de vida ,velas a serem acesas,rosas chinesas de seda em perfume natural .Mala aberta a espera da ousadia feminina,roupas que pré existem aos fatos da vida; tecidos onde se leem histórias recolhidas no caminho.
Que livro é esta mala aberta sobre a banqueta cor de laranja?
A solidão me interessa,o moço me comove,músicas conversam comigo e a paixão aumenta em minhas mãos
que escrevem sem disfarce .
E vou...
nem sei para aonde ,nem como,nem porque...urgente deslocamento,coração nas mãos.Talvez se eu não tivesse palavras seria mais fácil arrumar a mala.Sempre estou de partida no vão das frases inconclusas.No que falo por falar sou existente,existida,grávida de todos os tempos,revirada em sangue quente.Pequenas gotas de todos os dias, a vida que menstrua dolorida,nervosa,entumescida,escondida até de mim que a abrigo no umbigo.No líquido salgado dos poros abertos ao furor de criar,eterna ação,quase um castigo sem trégua que me alivia em seguinte momento.
Cortejo de palavras e o som de Pink Floyd nas raízes do existido,tudo é orgânico,tem cheiro,cor,forma e me impressiona no imenso silêncio que me envolve em música. Alucino nesta hora exata que não sei das horas,e, nem de mim,secreta que se vê no espelho na busca do instante das coisas esquecidas.
- Será que esta paixão um dia será obra?
-Será que serei a transformação da sua cabeça,o carinho na sua alma,a liberdade explícita que o libertará também ?
-Será?
Um rio,as árvores das margens,a calma e a sombra que me leva  na anarquia de Mick Jagger com quem contraceno aqui na cama em vasta e mítica iconoclastia.Vaga em mim líquido afrodisíaco,imbuído de desejos coesos e obscuros.A integridade do segredo que me habita,o lacre... minha força.
Fora da órbita comum amanhã o mesmo sol,agora as estrelas e ideias que se precipitam feito chuva,garoa fina,a alma molhada a brotar enormidades:-eu menina abraçada no meu pai,os bracinhos enroscados na nuca.No ombro ele abria um lenço de cambraia para que eu pudesse recostar sem manchar o paletó.Meus olhos agora são este quadrado branco que se estende na memória para enxugar lágrimas.Que saudade !
É o fim,a luz a ler a existência inteira.Meu bau de pinho de riga sob a mesa.Os achados,os perdidos,o perigo,os perigos...o vulto da coragem que cresce e assombra quem se vê quando me olha .
Sou o tempo do que vivi,a forma que envelheceu resistindo mas sem mágoas, o vitral do crepúsculo das serras de Minas Gerais ,vivas em relicário de cheiro de mato e rumor de cachoeira-esta é a matéria de que me fiz, a forma com que me reconheço.
Sou história ,música,caminho
dança ,risada gostosa
escuro de oco
poço...sempre um moço
a presença colorida do amor na minha vida
A impiedade cruel do amor...dor.sempre um nada a fazer que me poe amante do caminho.
Ouço Jim Morrison,a passagem de um morto vivíssimo em mim,presença que sublinha a ausência de Deus.
-Onde estás -pergunto àqueles que partiram?
-O húmus pegajoso da finitude e nós vivos à distância como se fossemos eternos,cheios de pompas e enredos .Nas noites buscando fantasmas atrás dos móveis,nas gavetas de documentos,nas caixas de fotos.Na coleção de fatos as intenções,o registro da saudade,o fluxo das coisas vividas,o constante,o impossível.
A ressonância do passado, o eco da criança que sente prazer em brincar de esconde esconde e sentir medo do escuro.-me vejo atrás da cadeira de balanço.
Me chamam...
E, eu quietinha ,quase morta,sem respirar a espera do flagra-me escondo para ser achada.
-é o que consigo me lembrar, a sensação perdura este frio esquisito na barriga,estas cores de papel de seda, a tinta do papel crepom .Nu o papel manteiga a espera do desenho com lápis preto Johan Faber .
A minha cor rubi ,vinho,vivo profundo...meus sonhos sem depois,medos.O roxo da paixão de Cristo,os santos cobertos,o pecado miúdo nas mãos traquinas e inocentes,guaraná champanhe,verdade que ninguém vê às tontas pelo ar.
O ardor que me leva feito as filhas de Maria segurando as fitas cor de rosa do andor de Santa Therezinha.
Morro,morro sim,todo dia morro em permanente trânsito de vida.Leve,cheia de vento no panorama da ausência  ,sou invisível eu ali me vejo lá...lá onde ninguém me vê pois estou aqui...uma mulher no mundo,longe em sentido que passa em poesia .Impressentida para quem fica de olhos baixos cravados no tempo do chão.

Em 18 de dezembro de 2013/madrugada
@ Cristina Siqueira