quinta-feira, 26 de junho de 2008

Querida Querubim

O vinho do meu canto, encanto ,fui me desprendendo do mundo. Cada vez mais eu, tão solta, com os porões abertos latejando vida. Suave, compadecida, de todos os instantes nos quais não me pertenço._ Quanto arrimo necessito nesta vida acelerada regada ao supra, ao sumo da beleza em músicas que me desafiam a entrega sincera da alma? _ Quantos beijos necessitaria para aplacar meus desejos de ternura? _ Quantos passos a bailar comigo nesta esfera intocada da vida, zona de trânsito ardente, quando ouço Nina Simone, Ella Fitzgerald em Chick to Chick ? _Quanto de mim é coreto e banda, alegria? Quanto de mim é Ray Conif, Ray Charles e homens que são sombras vivas a enlaçar-me pela cintura, cheirar os meus cabelos e sussurrar ao íntimo que não ofereço.
Vinho chileno tinto merlot, o melhor restaurante, arroz com coco, o cenário de palmeiras, bananeiras parceiras da lua. Danço, entregue ao cio das palavras que me fazem viva, loquaz. Quase pluma. A sombra dos panos brancos bamboleio na água azul, tudo tão deserto ...milhões de salões em festa são luminosos dentro de mim. Infinita festa, lustres de cristal balançando o tempo. O tempo que não existe na pausa do tinto, vinho que me entorpece, me amanhece. Sou alvorada. Não concordo com o este isto, este lixo que põe tudo a perder nas beiras.
Extravagância, a desenvoltura do movimento que acelera gravitando a poética do que não ouso declarar. _ tanto riso nesta esfera, a evolução da fantasiosa realidade.
Assim chuva, vento, me torno sol por um momento para ofuscar memórias que dilaceram pelo prazer de incomodar.
Soa alto o meu mundo nos olhos brilhantes vistos no espelho, apenas um descobrimento de tudo que posso e sou nesta inocência que ri, neste querer que divaga buscando no ar, no olhar de um ser perdido, um par para brincar de amigo.
Roda de dedos a se enroscar nos meus cabelos, lábios que se ajustem a mudez da alma acontecida, pernas que se acariciem mergulhadas em selvas, lençóis, mares. Pernas que se enlacem. Pernas que de braços dados caminhem.
Só agora entendo o querer um companheiro, um simples desejo de mulher marcada pelo drama de relações surpreendentes, derradeiras, efémeras, proibidas, delicadas, legítimas, intensas.
A casa natural do amor, de beleza parada no tempo do jazz, nos resguardos, no âmago do tesão de acreditar. Porque a vida é assim, um sempre pode, um querer viver, um soltar-se anjo, um virar-se brava mulher que se diverte, quer, se entusiasma, afogueia e ri.
Ri da vida e seus despropósitos. Ri com este deus nada sério que a chama de querida querubim enquanto lhe assopra as asas de penas de cisne e lhe toca o corpo com a brisa cetim.

4 comentários:

C NARCISO disse...

Fico sem palavras ao ler as suas.....
Fascinante, deslumbrante...

C NARCISO disse...

É escritora profissional? Desculpe a ignorância mas... estou em Portugal.

Léo disse...

Eu vejo uma Querubim, que se incomoda com a falta de trovadorismo, ao mesmo passo que da sua inocência ela faz sua tara de mulher ousada.
Busca a divertida vida de criança, enquanto que detém os direitos da sexualidade da vida adulta.

Mirse Maria disse...

Amei essa querubim meio menina-meiomulher.

Fantástico o desenrolar do texto!

Parabéns!

Mirse