quarta-feira, 27 de agosto de 2008

A casa de Fernando Pessoa

Lisboa
8 de julho de 2005
Casa Fernando Pessoa
Rua Coelho da Rocha 16_18
Hoje estando aqui pela segunda vez observo o contraste da claridade da casa,seu branco neve e a solenidade em negro deste poeta magnífico e misteriosíssimo Fernando Pessoa. Na recepção prepara-se uma exposição em esculturas de papier maché modelando o poeta nas mais diferentes cenas,compondo inusitados movimentos.Algo lúdico...a brincadeira Pessoa.Humor,quase um circo de papel.Algumas sugerem detalhes do cotidiano da vida portuguesa, em uma delas o artista compôs o poeta escrevendo em um caderno de reclamação.Este caderno existe nas casas de comércio para o consumidor colocar as suas queixas.
Ao lado a biblioteca em seu silêncio santo.Lugar de espera sagrada,contemplação do universo
Pessoano em miríades estelares ,organismo vibrante,a obra disposta pelas prateleiras.Os livros,
organizados.Sou tocada pelo lugar.
Parece-me que se pousar aqui e estiver calma poderei passar como que por encanto pelas influências que me trazem arrepios.Toquei a cômoda que servia a Fernando.A intimidade com a madeira encerada,os olhos fechados,a vibração me toma num redemoinho de cheiros e texturas,algo que pressinto cobiça o meu peito,meu cofre escuro por onde transito à superfície .Deve haver mais nesta caixa febril de contorno macio e arredondado,deve haver um botão,uma nascente,uma artéria e seus afluentes,algo que tocado se transforme em gente .
Não fosse o medo que me gela o estômago mesmo sendo clara a tarde,me entregaria a este idílio temeroso de amar a um poeta além da carne.Mas é tão viva a sua presença aqui que o sinto passar rente ao meu lado.São passadas enérgicas e resolutas,transitando fluídos pela casa
A passar de leve um certo ar a me tanger as costas,um alívio contente de carinho e escuto um _Seja benvinda querida brasileira ,sou todo seu,navegante dos tecidos que se tramam além do ser, além do pressentido.
Vens de tão longe querida forasteira.Com bagagens tupis e selos de países nas mensagens de algibeira .
Tu não sabes que és minha personagem e hei de te influir a vida inteira.
E penso que se derrame inspirações sobre os poetas que não os confundam,nem os tornem loucos e sim que os esclareçam e os libertem em vias abertas em seus ouvidos moucos.
És peregrina,pagã,erigida antes dos deuses se tornarem império.
És ambigua,perplexa se torna
espocando flashes de mil mulheres
em potes de mel como dissertastes em versos
És safa no sentido sagrado da palavra
e habitastes na Ilha do Paraíso incalculável
Buscas a filosofia
quando na verdade
ela é que tendes a ti
Refém do que não supões
que haja em teu íntimo
em teu imo
além de tudo que entendes de psicologismo
Não se incomode mais com as pratas
mesmo sendo mulher e ambiciosa
que nada lhe será impossível
nesta versão abandonada da vida
Entrega-te como amante
no quarto de penumbra
e verás tudo tão claro
que se cansará de ver
E tudo passará
pelos teus olhos mansos
e bastará
será a mais do que desejas agora
Haverá o momento em que
o que olhas te embebedará
a alma
todo o seu refúgio sensível
e não será mais tu
o que entendes que era
e não existirás
até que se formem
novos personagens em seu ôco imo
Nascerás assim mais vezes
em corpos máscaras
que ao crescer se auto inventam
como os poetas inventam personagens
Com direito a tudo
que os justifiquem ao mundo
Até que um dia
o sopro final, o último
lhes carregue a entoar
no espaço uma nova sinfonia
onde se pensava
que nada houvesse
ou o gelo e um retalhar de culpas

3 comentários:

C NARCISO disse...

Lindo! Assim dá gosto ler! Cris, será que é agora que vou ler Fernando Pessoa? Cpemço a sentir curiosidade e admiração por essa figuara que a Cris tanto admira.

JOSE ANTONIO LEAO RAMOS disse...

Cris,
Lindo de morrer. Adorei mesmo.
Você tem muito talento, moça.
Fernando Pessoa deve ter gostado muito também.
Beijo,
José Antonio

Editor do Poemblog

UIFPW08 disse...

linda.
Morris